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EQUANIMIDADE Imprimir E-mail

equanimidadepor: Edimar Jesus dos Santos

A cerca do texto "Xamanismo, Fanatismo e a Nova Consciência", de Léo Artese, compartilhado aqui em nosso site,
gostaria de fazer alguns comentários e colocações.

Em primeiro lugar agradecer ao Léo pela clareza e objetividade de suas colocações e pela oportunidade que este texto nos oferece para uma reflexão quanto a nossa própria identidade como grupo, assim como as mudanças e transformações que estamos passando, frutos do amadurecimento de todos nós.

Compreendo que o xamanismo que praticamos no Universo Místico, escola da qual me alegro em fazer parte, aproxima-se muito da visão expressa por Léo em seu texto, visto que aqui sempre procuramos deixar muito claro que não temos nenhum "Xamã", que não somos seguidores ou discípulos de nenhuma linhagem ou tribo, que praticamos um xamanismo "transcultural", universal, com uma abordagem holística que integra diversas fontes e culturas, num processo de estudo respeitoso e sem quaisquer pretenções dogmáticas ou impositivas.

Compreendo ainda que defender e praticar os valores e princípios do xamanismo em nossa escola trata-se de uma forma de honrar a sabedoria simples e profunda dos povos da terra estabelecendo um sadio paralelo para com valores religiosos presentes nas grandes religiões, como o Budismo e o Cristianismo. Ou seja, nossa forma de vivenciar o xamanismo é indissociável da sabedoria oriental, celta, egípcia, grega ou hindu.

Em nosso Xamanismo "High Tech" (tribo nativa alguma usa CDs em seus rituais, todos nós sabemos), procuramos unir harmoniosamente conhecimentos, técnicas e meios com propósitos bem definidos, dentre os quais destaco o principal: "Proporcionar que as pessoas possam se tornar melhores". Melhores cidadãos. Melhores seres humanos. Melhores filhos da terra e melhores irmãos uns dos outros. Melhores pais, mães, filhos e profissionais. E que de alguma forma esta melhora possa atuar sobre toda a natureza interior e exterior, proporcionando maior felicidade a todos os seres sencientes.

Aqui ninguém é "índio", assim como também não temos Lamas, mesmo que alguns sejam mais cabeludos e outros mais carecas, uns gostem de cantar ícaros e outros de entoar mantrans. Nos respeitamos pelo que somos e nos relacionamos fraternalmente pelas infinitas possibilidades do que podemos nos forjar a ser.

Cito nosso exemplo sem pretenção alguma de nos considerarmos melhores do que nenhum outro grupo ou escola, mas de alguma forma aproveitando a oportunidade para afirmar nosso respeito a todas as tradições e também a todos os demais grupos co-irmãos em propósitos similares. Vejo como produtivo, saudável e coerente para quem segue um caminho espiritual, seja qual for, o respeito ao ponto de vista do outro, a expressão religiosa do outro, a maneira do outro ver o mundo.

Particularmente esta é uma postura que adoto em todas as minhas relações e que me tem proporcionado sempre andar por diversar tribos, aprender muito com cada uma delas, ser bem recebido e respeitado. Pois respeito se adquire respeitando, jamais com bravatas ou com imposições de verdades absolutas.

Da mesma forma, tenho aprendido com o xamanismo que a humildade, requesito indispensável para o progresso do caminhante, pode ser muito bem aprimorada através do simples exercício de ouvir o outro com atenção e livre de julgamentos.

A reflexão de Léo sobre o fanatismo me faz lembrar de um ensinamento budista, que considero valioso e de certa maneira também presente no xamanismo: a "equanimidade".

Equanimidade significa serenidade de espírito. É um estado natural e relaxado, advindo da capacidade de experimentar de maneira tranqüila e equilibrada as diferentes situações do plano material, desde as sensações, pensamentos e fenômenos.

Para adquirir esse equilíbrio interno há que se aprender a pensar livre de preconceitos, a refletir antes de agir, a buscar o ponto de equilíbrio entre o que nos agrada e o que nos desagrada nas pessoas e no mundo. Quando a razão domina o homem, o coração torna-se duro. Conquistamos um coração equilibrado quando mantemos o entusiasmo por nossas idéias e ações, sem exageros ou devaneios.

O equilíbrio entre pensar, sentir e agir é ensinado nas tradições nativas, em ensinos simples como "coloque as palavras para andar, aja como fala, fale como pense, pense como sente". Ou seja, primeiro o coração, depois a razão, por fim a ação. Viver a vida em beleza, aceitar todas as coisas, mesmo as dificuldades como um presente divino, como o que necessitamos em cada momento para obter sabedoria, mantendo-nos serenos e íntegros em meio as tempestades e bonanzas da vida é viver em equanimidade.

Ela é o caminho do meio, o centramento.
É aceitação das coisas como elas são.
É a experiência zen pura e simples.
É o deixar fluir e o deixar seguir.
É o desapego em relação a todas as coisas,
inclusive a si próprio.

Equanimidade é vacina contra fanatismos. É autodefesa contra as ilusões e armadilhas da nossa própria mente e dos outros. É boa arma contra o temor, a desconfiança e o ceticismo, assim como excelente escudo contra a sectarismo, a intolerância e o preconceito.

Diz um conto Zen:
“Durante as guerras civis na China feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar o controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando - todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado. Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge. O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria. "Seu tolo!! ” ele gritou enquanto desembainhava a espada, "não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?" Mas o mestre permaneceu completamente tranqüilo. "E você percebe," o mestre replicou calmamente, "que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?".

Vivemos um momento muito importante no Universo Místico. Os que tem estado mais próximos são testemunhas das inovações, das novas visões e métodos que estão sendo compartilhados, frutos de uma construção em grupo, frutos da própria egrégora, ou seja de cada um de nós, de nossas necessidades, potencialidades e contribuições.

Um novo mundo de possibilidades se descortina em nossos "momento prática", "eterno aprendiz" e sessões instrutivas. Percebo este momento como de muita expansão, abundância e prosperidade para toda a família. Irmãos que estavam afastados retornam a casa, novos irmãos se integram rapidamente, sem nem ao certo saber porque. O acolhimento, o carinho, a amizade, a gratidão, a compaixão e a tolerância já não são mais palavras de ordem, são fatos concretos que brotam expontaneamente em cada um. O serviço deixou de ser uma obrigação para ser simplesmente um bom motivo para estarmos juntos.

Sinto-me feliz em fazer parte de uma escola que nos oportunizam múltiplas possibilidades de aprendizado e cujos ensinos compartilhados respeitam o momento e o entendimento de cada um. Sinto-me privilegiado por morar em um lugar em que as diferenças são respeitadas e todas as tribos encontram refúgio. Sinto-me gratificado pela oportunidade de "seguir com" ao invés de "seguir algo ou alguém". Sinto-me seguro pelas lideranças inspiradoras, renovadoras e metamorfósicas que se reinventam rejeitando rótulos e "verdades absolutas."

E por fim, sinto-me seguro também por chamarmos para nós o que podemos dar conta e prestar contas: o respeito, a tolerância e a compaixão, a fé e a felicidade para todos os seres.

Que assim seja em todos os grupos religiosos, esotéricos, xamânicos e espirituais. Que a grande nação de guerreiros do arco-iris volte suas armas para os inimigos reais, aqueles que ameaçam a continuidade da vida em nosso planeta. Que despertem e reconheçam que o inimigo não é o irmão, mas que ele pode estar na espreita em nosso próprio coração. Que se dêem conta que de todas as armas a mais poderosa é o amor e o melhor escudo, a compaixão.

Grato Léo e toda a irmandade pela oportunidade de ativar a memória com estas reflexões e de afirmar para mim mesmo e para o Universo Inteiro o que meu coração sente e acredita.

Um excelente semana a todos, com Luz, Paz e Amor.

Hare Om
Edimar Jesus

 

Reflita

Que eu nunca mendigue paz para minha dor, e sim um coração forte para suportá-la.

Rabindranath Tagore