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SUFISMO Imprimir E-mail

sufismo1Uma definição de Sufismo, a partir de seu nome é algo difícil de ser feito, visto haverem várias formas de interpretar a sua raiz arábica: SF. Uma das interpretações mais em voga é a que o Sufi é aquele que faz uso do manto rústico tecido de lã (sûf) enquanto que outra linha de interpretação faz derivar o nome do sopro do conhecimento místico que nasce do coração (Sôf). Uma terceira linha faz nascer o nome não de uma raiz árabe, mas sim grega, Sophos, ou conhecimento.

De qualquer maneira, a forma mais aceita de interpretar o Sufi e o Sufismo é utilizando não a sua origem lingüística, mas sim os seus objetivos: em termos gerais, o Sufi é todo aquele indivíduo que acredita que é possível ter uma experiência direta de Deus e que está preparado para sair de sua vida rotineira para se colocar debaixo das condições e meios que lhe permitam chegar a este objetivo. Neste contexto, o Sufi é considerado como o protótipo de todo místico que busca a União. Um exemplo vívido nos é apresentado por Djalalludin Rumi.

O Sufismo é atualmente mais equacionado com uma forma islâmica de misticismo, que tende a abraçar diferentes maneiras e tipos de técnicas, mas todas voltadas a uma busca de uma comunhão direta entre Deus e o homem. É uma esfera de experiência espiritual que corre em paralelo com a prática do Islão, que deriva da revelação profética e se desenvolve na Shari’a e na teologia muçulmana. Como religião codificada, o Islão não pode admitir que a experiência mística possa ocorrer em paralelo e como experiência pessoal única, o que gerou as tensões e questionamentos que o Sufismo islâmico sempre sofreu ao longo de sua trajetória. O objetivo tanto do Islão quanto do Sufismo é conduzir o praticante em direção à Verdade ou Realidade. Dentro do Islão como religião revelada, tal objetivo seria obtido através da prática dos preceitos religiosos enquanto que no Sufismo, além destes preceitos, entrariam também em jogo uma série de fatores intuitivos e emocionais que, segundo a teoria do Sufismo, estariam dormentes na maioria dos seres humanos e que, sob uma supervisão correta, poderiam ser despertos e desenvolvidos.

sufismo3Este desenvolvimento recebe o nome de Caminho e o viajante no caminho (salak at-tariq) busca eliminar os véus que ocultam a sua experiência do Real e assim, vir a transformar-se ou absorvido na Unidade indiferenciada. Embora não seja um processo intelectual, o Sufismo acabou gerando uma série de formulações teórico/práticas que constituíram verdadeiras linhas filosófico/místicas que acabaram se constituindo em verdadeiras formas de reação contra um Islão cada vez mais sistematizado em termos de leis e teologia sistemática, objetivando uma liberdade espiritual através da qual os sentidos espirituais intrínsecos do ser humano pudessem ser amplamente utilizados. Os vários caminhos (turuq, tariqa no plural) estão preocupados com este objetivo e não na justificativa religiosa ou não.

O Sufismo inicial representava uma expressão natural da religião pessoal em contraposição à expressão religiosa do grupo. Era a afirmação do direito pessoal em seguir uma vida de contemplação e de busca de contato com a fonte de ser e realidade, acima de qualquer forma institucionalizada de religião baseada em mera autoridade, numa relação Mestre-Discípulo unilateral, com sua ênfase na observância ritual e num moralismo legalístico. O espírito da piedade Corânica acabou fluindo para dentro das vidas e práticas, assumindo formas de expressão diversas, como encontradas no zickr (rememoração), dos antigos ascetas (nussak) e devotos (zuhhad). Estes buscadores, depois de obterem uma experiência de comunhão direta com Deus garantiam que o Islão não estava confinado dentro de uma diretiva moralística. Seus objetivos eram de alcançar uma percepção ética.

sufismo4O Sufismo teve seu desenvolvimento dentro do corpo da religião Islâmica e, na sua origem pouco deve a influências não-muçulmanas, embora recebendo algumas tinturas da vida ascetico-mística cristã e do pensamento do Cristianismo Oriental. Os mestres iniciais estavam mais preocupados com as experiências do que com a teorização teosófica.

Buscavam mais guiar que ensinar, direcionando o aspirante ao longo das suas experiências, buscando sempre um conhecimento isento dos perigos da ilusão, através do qual o aspirante pudesse obter um acesso à verdade espiritual. Na prática, o Sufismo consiste em sentimentos, percepções e revelações, ou insights pessoais que são alcançados através de uma série de passagens por estados de êxtase. Assim, o ensinamento se seguiria à experiência. Neste caso, o êxtase seria entendido como fases distintas de negação de aspectos prévios do ser e a incorporação de novos estados e a ativação de novas potencialidades, sendo que este processo sempre é acompanhado de sentimentos, emocionalidades e intuições que nada tem a ver com o êxtase na sua definição mais ‘mediúnica’ de negação (ou suspensão temporária) da consciência pessoal. Aqui é feita uma distinção entre as duas formas de expressão externa da experiência do postulante: o estado de êxtase (ghalaba, defendido por Bistami), onde o indivíduo demonstra, através de gestos, palavras, cânticos ou até mesmo pela alteração de seus comportamentos e presença física, aquilo que está experimentando internamente e na sobriedade (sahw, defendido por Junaid), onde o indivíduo não deixa transparecer nada aquilo que lhe está acontecendo. Com o passar do tempo, esta última postura tornou-se a mais valorizada, pois era considerada como ‘segura’ pela ortodoxia religiosa.

sufismo5Os grupos sufis iniciais eram bastante frouxos e mutáveis, com os discípulos viajando em busca de mestres, outros ganhando seu sustento com trabalho e outros mendigando. Aos poucos vão se formando locais de reunião para tais tipos de viajantes e cada um estava associado com algum tipo de função: as hospedarias, em certas regiões da Arábia (ribats) tem esta origem, no Korasan, estes locais estavam associados com casas de repouso, hospitais e hospícios (khanaqah) enquanto que outros eram retiros (khalwa ou zawya), geralmente sob a orientação de um diretor espiritual. Com o tempo, todos estes termos passaram a representar um local de reunião sufi. Já no século XI encontramos estruturas Sufi, com locais de reunião, exercícios espirituais, meditação e retiros bem organizados, embora o pessoal que deles participava ainda era bastante infreqüente e que migravam de mestre a mestre. Com o passar do tempo começaram a dispor de um pessoal mais permanente e finalmente, assumiram as características de verdadeiras linhagens espirituais, abrindo o caminho para um processo de institucionalização. Assim surgem as ordens Sufi, geralmente girando ao redor do místico fundador, e surge o processo de admissão de um postulante à uma Silsila (cadeia contínua de autoridade e de transmissão de conhecimento). Freqüentemente uma Silsila, por um processo de desdobramento ou de quebra, dá origem a outras linhagens que lhe são parentes, criando uma infinidade de subordens que irão, por sua vez passar pelo mesmo processo. Tal mecanismo está em franco desenvolvimento nos dias atuais, principalmente devido ao fato do grande interesse dos Ocidentais por estas Ordens, o que facilitou este processo de multiplicação.

Em termos esotéricos, o Sufismo não se diferencia da busca pela União que já é encontrada nas propostas místicas anteriores ao Islão, a Cabala Judáica, as propostas Platônicas e Neo-Platônicas, o Gnosticismo e o Misticismo Cristão precederam e deram um embasamento para o Sufismo Islâmico. Dentro deste contexto maior, o Sufismo, assim como as formas que lhe precederam recebem o nome de Trabalho, ou seja, o processo ativo de aperfeiçoamento do indivíduo para que este se torne capaz de perseguir o fim último de seu ser: a União Mística com o Absoluto. Nesta perspectiva não seria possível estabelecerse qualquer diferencial entre uma linha com outra, afora as diferenças exteriores de apresentação e contexto cultural. Essa é uma das formas de entender o que é chamado de Tradição Perene, ou Filosofia Perene, que representa a essência dos conhecimentos e praticas capazes de conduzir o individuo a um desenvolvimento harmônico de suas potencialidades. Assim cada uma destas linhas e escolas, que tentaram preservar e desenvolver este conhecimento, são expressões desta Tradição Perene em diferentes épocas e culturas. Cada uma delas assumiu uma forma especifica, mística, religiosa, artística, filosófica ou cientifica, de acordo com o momento em que surgiram e se desenvolveram. Assim o problema fundamental que se apresenta ao postulante é o mais crucial de todos: o que ele realmente deseja; a busca da União, com tudo que isto representa ou a busca de um apoio religioso e institucional. Isto com freqüência não é bem analisado pelo postulante que acaba confundindo ambos os objetivos.

sufismo6O GRANDE SUFISMO

O Sufismo tem sido reconhecido por muitos autores como um dos maiores representantes da espiritualidade e importante fonte de conhecimentos e práticas do caminho místico.

Seu objetivo básico é o de prover ao ser humano, um caminho real e bastante abrangente de crescimento e desenvolvimento de suas potencialidades, buscando conduzir o ser humano de volta à sua dimensão de perfeição, fim último de qualquer caminho místico verdadeiro.

Muito da proeminência que o Sufismo desfruta vem do fato dele conter elementos oriundos de outras tradições e de ter dado continuidade a elas incorporando-as dentro de seu processo. Isto acabou por conferir-lhe um caráter mais universal, mesmo estando inserido dentro do contexto do mundo Islâmico.

É possível perceber esta influência especialmente durante a Idade Média e Renascença, que se estendeu aos Cristãos, Judeus e outras escolas esotéricas. Também influenciou o desenvolvimento da Filosofia, principalmente com a tradução e divulgação dos textos gregos, Ciências como a medicina, a matemática, a astronomia e as Artes.

Uma das versões sobre o início do Sufismo remonta aos indivíduos que surgiram depois da morte do profeta Maomé. Estes indivíduos se retiraram para o deserto ou áreas de menor evidência quando se iniciaram as disputas pelas sucessões dos Califas. Essa atitude buscava preservar e dar continuidade aos conhecimentos que eles haviam recebido principalmente de Ali e de Abu Bakr, ambos companheiros mais próximos do Profeta. Segundo a tradição, Maomé teria confiado principalmente a eles, os aspectos mais esotéricos do conhecimento que possuía, ou seja, sua dimensão mística ou espiritual.

Em contato também com outras tradições, estes indivíduos foram os maiores responsáveis pelo desenvolvimento da dimensão mística do Islã, e aos poucos foram formando escolas e ganhando importância como representantes da espiritualidade.

Eles e seus discípulos começaram a ser conhecidos como Sufis, e a inserir suas escolas na comunidade, resgatando e ensinando o caminho místico da Verdade e da Unidade Divina, a exemplo do próprio Maomé. E isto não aconteceu através do ascetismo clássico de abandono e negação, mas pela verdadeira pobreza espiritual.

Nesta pobreza, o coração imerso no Amor, abandona o seu apego ao mundo para unir-se a Deus. Isso acontece sem que, necessariamente, deva-se abandonar o mundo, ou afastar-se da sociedade. Afinal, não haveria sentido em ensinar a Unidade rejeitando uma parte da expressão do Absoluto. Como bem resume um ditado: “O sufi é aquele que está no mundo, mas não pertence a ele.”

Como seu maior propósito está na busca pela Presença Divina, e também por ter incorporado elementos de outras tradições, o Sufismo acabou por adquirir um caráter mais universal. E por isso também, foi muitas vezes reconhecido como a essência das religiões e da espiritualidade. Prova disso é que dentro de grupos sufis é comum encontrar-se indivíduos de diversas religiões e tradições.

Esta irmandade

não tem nada a ver com ser elevado ou baixo,

esperto ou ignorante.

Não existe uma assembléia especial, nem um grande discurso,

nem se requer nenhum curso anterior.

Esta irmandade se parece mais com uma festa de bêbados
cheia de trapaceiros, tolos, charlatões e loucos.

*

Não sou deste mundo e nem do próximo;

Nem do céu, nem do inferno.

Não vim de Adão nem de Eva;

Não moro no Éden nem nos jardins do paraíso;

Meu lugar é um não lugar, minhas pegadas não deixam marca.

Nada é meu, nem corpo nem alma.

Tudo pertence ao coração do meu Amado.

Eu desvesti todas as diferenças,

E agora vejo os dois mundos como um.

sufismo2

O Sufismo sempre se baseou em uma perspectiva perene e universal da espiritualidade. Por seu caráter humanista e de busca pela transcendência, ele é reconhecido como expressão e continuidade de uma tradição ainda mais antiga, responsável pela preservação e transmissão dos conhecimentos e práticas que visam o desenvolvimento do homem e da própria humanidade.

Este é o núcleo do Grande Trabalho, da tradição das Escolas de Sabedoria, que já foi representado pela Escola de Sarmung, e que também é chamado de Grande Sufismo, ou Sufismo Maior. Ele está no núcleo da própria espiritualidade, uma vez que permanece livre de qualquer outro condicionante ou estrutura, seja ela, religiosa, social ou cultural. Esta tradição foi também chamada por alguns autores de Filosofia Perene.

O Sufismo, assim como outras Escolas, recolhe e preserva o conhecimento das diversas tradições esotéricas e das outras áreas do conhecimento humano e produz um novo conhecimento, mais abrangente e adequado ao contexto cultural.

E é por isso que Sarmung, uma das últimas Escolas a cumprir este papel, tinha como símbolo a abelha, que recolhe o néctar de diversas flores, e que em sua colméia produz o mel. E é esse mel que, de tempos em tempos, é oferecido e reorienta a humanidade em seus caminhos de desenvolvimento.

Por toda esta liberdade e complexidade apresentadas acima, o Sufismo foi muitas vezes atacado dentro do próprio mundo Islâmico como sendo uma heresia. Talvez por isso, atualmente, o Sufismo venha perdendo exatamente os elementos de liberdade e universalidade que tanto o caracterizaram. Muitas vezes, acaba por restringir-se exclusivamente à perspectiva Islâmica, que jamais negou ou deixou de proteger e reverenciar, mas também à qual nunca havia se deixado aprisionar.

Outro processo bastante triste é a vulgarização do Sufismo através do oportunismo de certos indivíduos sem conexão com o processo, que surgem em função do destaque que ele recebeu nos últimos anos.

Esse padrão infelizmente vem atingindo não apenas o Sufismo. A degeneração e banalização da espiritualidade vêm se tornando um problema sério. A grande quantidade de informação tem colocado as pessoas em um grau acentuado de confusão. Por faltar referências no que diz respeito à espiritualidade é difícil desenvolver a capacidade de discriminar o que útil do que não é, e isso reduz em muito a chance de se fazer escolhas adequadas.

O objetivo não consiste em ter uma crença onde se apegar, mas sim, em procurar desenvolver uma qualidade de viver e de ser. É fundamental compreender que um caminho de desenvolvimento busca desvendar o maravilhoso mistério que se encontra em cada pessoa e em toda criação. O conhecimento real não é simplesmente um conjunto de crenças ou dogmas, mas sim, a busca pela essência daquilo que cada um é e do significado da própria vida.

sufismo8Por esse motivo nossa relação com o Sufismo não se deu através de uma dimensão religiosa, mas sim, por causa de sua característica universal. Ele expressa aspectos de uma tradição que está além de perspectivas limitantes e dogmáticas e por isso, tornou-se fundamental em nossa trajetória. Esse processo, dentro do Sufismo, ocorreu gradualmente na medida em que tais elementos foram sendo reconhecidos como um complemento importante para outras propostas e escolas de sabedoria ocidentais.

Porém, tem sido através da perspectiva do Quarto Caminho, uma expressão contemporânea da tradição perene, que temos buscado explorar e resgatar outras propostas e tradições que igualmente expressaram esta mesma perspectiva em outros momentos. Mas, como já foi apresentado por vários autores, até mesmo as formulações do Quarto Caminho parecem ter sido influenciadas pelo Sufismo, através dos contatos que Gurdjieff estabeleceu com esta tradição.

Por outro lado, ao longo de nossa experiência, compreendemos que são necessárias outras abordagens para que as experiências propostas pelo Sufismo sejam tornadas permanentes. Por isso temos adotado ao longo do tempo, uma postura mais aberta em relação a essas tradições em busca da essência destes conhecimentos e práticas.

Neste mesmo contexto, outros expoentes do Sufismo tornaram-se fonte de estudo, inspiração e influenciaram igualmente nossa trajetória. Indivíduos como Shihabuddin Surawardi, Muhidin Ibn Arabi e Jalaludin Rumi em suas buscas por revelar o mistério do homem e da criação expressaram um conhecimento próprio, fruto da transformação pessoal de cada um. Ao invés de aderirem a dogmas e repetirem comportamentos e conhecimentos, eles se tornaram fonte de novas visões de mundo que renovaram perspectivas e abriram as portas para outras dimensões e possibilidades.

Este é o valor fundamental do caminho espiritual - possibilitar o desenvolvimento do individuo e a extraordinária descoberta que se revela a cada um que busca apaixonadamente descobrir seu próprio mistério.

Eu desejo ir para longe,

Centenas de milhas da mente.

Desejo me libertar do bom e do mal.

Quanta beleza por trás dessa cortina!

*

Existe uma alma dentro de sua alma.

Busque por ela.

Existe uma jóia na montanha que é seu corpo.

Olhe para a mina que contém essa jóia.

Ó sufi andarilho

Busque dentro de você e não fora.

sufismo7

*fonte do texto:

http://www.imagomundi.com.br

* imagens anexadas via "google"

 

Reflita

Só me interessam os passos que tive de dar na vida para chegar a mim mesmo.

Herman Hesse