
| A HORA DO CHÁ |
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A ayahuasca conquista adeptos de outras religiões e vive seu momento de maior expansão e reconhecimento. Mas a bebida sagrada segue polêmica, no Brasil como e em outros países Revista Galileu - Pablo Nogueira
O que têm em comum o ofício de baiana do acarajé, o frevo pernambucano e a festa do Círio de Nazaré? Os três são "patrimônio cultural imaterial brasileiro", título criado pelo governo em 2000 com o objetivo de auxiliar na preservação de tradições populares. Apenas 12 manifestações culturais receberam esse status, sendo que Bumba Meu Boi e o queijo Minas aguardam na fila. Em maio surgiu um novo candidato: o uso religioso do chá ayahuasca, mais conhecido como Daime. O pedido foi feito durante uma visita oficial do ministro da Cultura ao Acre, e tinha como porta-vozes políticos, religiosos e o governador do estado, Binho Marques (PT-AC). A reação de Gilberto Gil foi positiva: "espero que possamos celebrar, em breve, o registro do ayahuasca como patrimônio cultural da nação brasileira". A imprensa nacional rapidamente repercutiu as palavras do ministro. Alguns veículos apenas registraram a iniciativa, mas outros questionaram a idéia, na linha "bebida alucinógena pode virar símbolo nacional", incitando comentários pró e contra internet afora.
Tudo somado, o episódio mostra duas coisas: 1) Após quase oito décadas de existência, as religiões ayahuasqueiras vivem seu melhor momento. Assimiladas por outras fés e reconhecidas pelas autoridades, vêem seu número de adeptos subir 10% ao ano; 2) Todo esse ciclo de expansão é ignorado pela maior parte da sociedade brasileira, que continua desconfiando do uso de uma substância psicoativa de forma religiosa.
Para tentar reverter esse quadro realizou-se em maio, em Brasília, o II Congresso Internacional da Hoasca. O encontro foi organizado pela União do Vegetal, que junto com o Santo Daime e a Barquinha, é uma das três religiões ayahuasqueiras brasileiras. Também participaram membros das outras duas correntes, e o congresso tornou-se uma defesa da religiosidade baseada no chá. "Essa é a religião da floresta", disse no evento a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC). "Queremos que o mundo reconheça nossa religiosidade, porque o Brasil não conhece a Amazônia." De formação católica, foi ela que iniciou a articulação do pedido de reconhecimento entregue a Gil, embora jamais tenha experimentado a bebida. A mais conhecida das três religiões do chá é o Santo Daime. A menos conhecida é a Barquinha, que praticamente não se expandiu para fora do Acre, onde surgiu. A que tem mais fiéis é a União do Vegetal (UDV). De estrutura centralizada e hierárquica, foi criada em 1961, em Rondônia, pelo baiano José Gabriel da Costa (1922-1971), chamado Mestre Gabriel. Sua doutrina é cristã e reencarnacionista, e eles chamam o chá de "hoasca" ou de "vegetal".
A UDV manteve um ritmo lento de crescimento durante boa parte de sua história e em 1998 contava com pouco mais de 6 mil adeptos. Uma década depois, esse total está próximo dos 15 mil, sendo que alguns participam de "núcleos" e "distribuições" (como chamam seus templos) sediados na Europa e nos Estados Unidos. O antropólogo Sérgio Brissac, que pesquisou a UDV em sua dissertação de mestrado no Museu Nacional, diz que o crescimento da religião está ligado ao próprio "espírito do tempo" que vivemos. "Frente ao relativismo contemporâneo, a dinâmica do ritual e a doutrina da UDV apresentam a alternativa de um conjunto sólido de verdades. Além disso, há uma busca por uma experiência intensa do sagrado, e a vivência com a ayahuasca, unida ao ritual e aos ensinamentos, oferece essa oportunidade", diz. Ele não aponta um perfil definido de freqüentador, mas nas grandes cidades predominam pessoas de classe média e formação universitária.
Expansão e exposição A UDV tem capitaneado boa parte dos esforços para que o uso religioso do chá seja visto como algo legítimo também fora do Brasil. O caso mais controverso ocorreu nos Estados Unidos. Entre 1999 e 2006 a UDV enfrentou uma longa batalha jurídica a fim de preservar o direito de consumir o ayahuasca, que estava sendo contestado pelo governo americano. Durante esse período, os membros mantiveram suas práticas rituais (veja quadro "Uma sessão da união"), mas bebendo água em vez de chá. Em janeiro de 2006 a Suprema Corte anunciou um veredicto favorável ao grupo, e o ayahuasca voltou a ser consumido. À frente da batalha pela legalização estava Jeffrey Brofman, representante da UDV nos Estados Unidos. Ele recusou entrevistas a veículos como New York Times e CBS na época do veredicto e falou a Galileu sobre sua participação no Congresso em Brasília. De origem judaica, conheceu grupos indígenas que fazem o uso religioso de psicoativos antes de chegar à UDV, em 1990. Hoje ele comanda 180 adeptos nos EUA. A penetração do Santo Daime no exterior é bem maior. Estados Unidos (incluíndo Havaí), Canadá, Espanha, França, Itália, Suíça, Irlanda, Alemanha Inglaterra, Holanda e Japão têm grupos ativos. Como explica o antropólogo Alberto Groisman, da UFSC, o processo se iniciou com a visita de estrangeiros à região amazônica, nos anos 1970, e continuou na década seguinte, quando os daimistas brasileiros passaram a ser convidados a viajar para realizar rituais e ensinar os fundamentos da religião. Desse intercâmbio foram se formando grupos estáveis que se reúnem para praticar rituais como o bailado (ver quadro "Um bailado no Santo Daime") e cantar hinos religiosos que versam, entre outras coisas, sobre a espiritualidade da floresta amazônica. Sabe-se que eles atuam em diferentes condições legais, dependendo do país. Na Inglaterra os trabalhos são realizados secretamente, a fim de não chamar a atenção das autoridades. Na Espanha, dois daimistas brasileiros foram presos em 2000, acusados de tráfico de drogas, mas hoje a religião está inscrita no cadastro nacional de entidades religiosas. Nos EUA, os daimistas pleiteiam os mesmos direitos já outorgados à UDV. Na França, após uma vitória judicial inicial em 2005, o governo incluiu os princípios ativos do chá na lista de estupefacientes, tornando ilegal seu uso religioso ou não. "Cada país reagiu à chegada do Daime conforme o estabelecido por suas normas nacionais de controle de drogas, aplicada conforme a demanda que aparecia", explica Groisman. Um bom exemplo desta mudança de atitude foi o caso da Holanda. Em 1999, dois daimistas foram presos devido ao uso religioso da ayahuasca. Dois anos depois, após um processo judicial que envolveu a consulta a médicos, psicólogos, teólogos e antropólogos, os rituais do Daime foram liberados. Groiman viveu algum tempo na Holanda acompanhando as igrejas daimistas do país. "O que mais me impressionou foi a dedicação dos holandeses em seguirem as formas e conteúdos tradicionais do Santo Daime. Eles cantavam os hinos em português, muitos estavam aprendendo a língua ."
Chá em transe Mas em certas "igrejas" (como são chamados os templos do Daime) a mistura já é norma. "Acho que o Daime caminha para se tornar cada vez mais eclético", diz a antropóloga Beatriz Labate, autora de quatro livros sobre o uso religioso da ayahuasca e de outras substâncias psicoativas ". No exterior há igrejas que adotam influência hare krishna e de terapias alternativas. Em Assis, na Itália, há uma influência forte da mitologia local, ligada a São Francisco." Aqui no Brasil algo semelhante aconteceu a partir da popularização do uso religioso da ayahuasca nas grandes cidades do Sudeste. É cada vez maior o número de grupos religiosos que se baseiam no uso do chá mas incorporam elementos diferentes daqueles propostos pelos fundadores das três religiões. "Em 2000, pesquisando para o mestrado, encontrei 30 grupos em São Paulo; hoje deve haver pelo menos o dobro", diz a antropóloga. Talvez o exemplo mais conhecido dessa nova geração de usuários religiosos seja o umbandaime, tendência que, como o próprio nome sugere, busca uma aproximação com a religiosidade afro-brasileira. O terapeuta Antônio Marques Alves Júnior defendeu em 2007 um mestrado na PUC-SP sobre a aproximação entre Daime e umbanda. Alves ressalta que, embora o fundador do Daime, o maranhense Raimundo Irineu Serra (1892-1971), chamado Mestre Irineu, fosse negro, a religião que ele criou não dava importância ao chamado transe mediúnico, comum nas religiões afro. "Talvez ele tenha deixado a mediunidade de lado intencionalmente, para escapar da perseguição religiosa que a própria umbanda sofria no inicio do século 20", especula. Irineu morreu sem apontar um sucessor. Após sua morte, um de seus discípulos, Sebastião Mota Melo, chamado por daimistas de Padrinho Sebastião, passou a liderar uma comunidade batizada de Colônia dos Cinco Mil, perto de Rio Branco. Entre 1974 e 1980 esse grupo se tornou um pólo de difusão do Daime para fora da Amazônia. Ao chegar ao Rio de janeiro, no início dos anos 1980, o Daime atraiu o interesse de praticantes de umbanda, inclusive mães-de-santo. A partir desse trânsito, surgiu no Rio uma variante da religião. Nela, além dos trabalhos "tradicionais" de Daime, havia espaço também para outros rituais, onde o consumo do chá se ligava a "receber entidades". O próprio Padrinho Tião, um ex-espírita, se interessou por essa vertente, e seu filho, Alfredo melo, construiu rituais que exploravam a conexão entre daime e umbanda. "Muitos adeptos criticam essa aproximação, dizendo que isso não é Daime", explica Alves, ele mesmo um "aproximador". Nos anos 1990, ele abriu uma igreja daimista chamada de Reino do Sol, que se tornou referência desse tipo de sincretismo em São Paulo. O hino oficial da instituição diz que "O Daime é o sol da minha vida/e a umbanda é sua filha querida", e lá realizam-se, além dos trabalhos "oficiais" do Daime, rituais chamados de giras, com até 200 participantes, dos quais as pessoas participam descalças e vestidas de branco, e nos quais o ayahuasca facilitaria o transe mediúnico. Às terças-feiras, o grupo de Alves realiza um ritual no qual, assim como acontece nos centros espíritas, alguns indivíduos entram em transe e recebem "entidades", que dão consultas grátis à população como exercício de caridade. Antes de entrar em transe os médiuns podem beber pequena quantidade de ayahuasca. E durante as duas horas que dura o trabalho, um grupo de músicos canta suavemente hinos que misturam os imaginários da umbanda e do Daime. Ao final, todos os participantes formam uma roda e bailam e cantam hinos de inspiração daimista, terminando o ritual com a oração de São Francisco. "Acho que essa nossa síntese é um trabalho inovador. Sou umbandista tanto quando sou daimista. Pertenço a toda religião que não se considera a única", diz Alves.
Passagem para a Índia Outro exemplo representativo de novo grupo é o Beija Flor de Lótus, que tem sua sede nos arredores de São Paulo. Ele é dirigido pelo músico e terapeuta Chandra Lacombe. Lá os rituais combinam alguns elementos do Santo Daime, como orações cristãs, uso da ayahuasca e o canto de hinos, com outros originários da espiritualidade indiana, tais como mantras, posturas meditativas e música hindu. Um dos hinos que o músico compôs diz assim: "É o sol e a Lua/ É Jagube e Rainha/ É o shiva e a shakti/ A divina alquimia". "Jagube" e "Rainha" são os nomes que os daimistas dão às plantas a partir das quais se faz o chá, e Shiva e Shakti são divivindades da Índia. Chandra começou a desenvolver o que ele chama de "linha unificada" dez anos atrás. Até então, era apenas membro de um outro grupo independente, no qual também se buscava aproximar o hinduísmo do Daime -ou seja, ele já é a segunda geração desse tipo de sincretismo no Brasil. Atualmente sua comunidade reúne 60 membros regulares. "A maior parte são pessoas que estavam insatisfeitas com a doutrina do Daime. Queriam mais espaço para abordar sua individualidade." Já os que chegam ao grupo vindos das seitas hinduístas tradicionais encontram a experiência mística associada ao chá. "Se consumido num contexto ritualístico, ele é mais do que simplesmente um alterador de consciência. Acreditamos que o mesmo estado poderia ser alcançado pela meditação, mas a pessoa precisaria de muito esforço e disciplina para chegar aos níveis rapidamente atingidos com a bebida." Ao longo dos seus anos como líder de grupo, Chandra viajou por diversos países coordenando rituais, onde formou um grupo regular de adeptos. Alguns deles vêm ao Brasil para matar a saudade dos trabalhos no Beija Flor de Lótus. É o caso de John, pseudônimo usado por um terapeuta de um país escandinavo que prefere não se identificar, com medo de que o governo de seu país descubra que o ayahuasca está circulando por lá. Ele diz adorar "o Santo Daime tradicional", e vê o trabalho de Chandra como uma parte legítima dele: "Se o Mestre Irineu está incluído, para mim também é Daime". Discussões doutrinárias à parte, ele ressalta a importância da experiência com o chá: "os momentos de êxtase são a parte fácil. Difícil é quando você se confronta com a sua sombra. É aí que o Daime é importante para mim, e pode ser para outras pessoas. Às vezes penso que essa bebida poderia curar o mundo."
Ainda polêmico Segundo o psiquiatra Wilson Gonzaga, são justamente os pequenos grupos independentes que preocupam as autoridades que regulamentam o uso religioso do ayahuasca no país. Ele é membro do grupo de trabalho interdisciplinar do Conselho Nacional Antidrogas, criado em 2004 para estabelecer princípios éticos a serem seguidos por todas as entidades usuárias do chá. Na estrutura da comissão foram indicados representantes da União do Vegetal, das diferentes linhas de Daime e dos independentes, e Gonzaga entrou como representante desses últimos. "Os grandes, como a UDV ou o Daime, possuem mecanismos fiscalizatórios para controlar a maneira como o chá é utilizado. Já essas organizações novas, oriundas das maiores, não tem". Ele acredita que a tendência é que o número de grupos se reduza. "Estamos vivendo um momento de boom, mas com o tempo muitos grupos desaparecerão. Ficarão os que realmente fazem uso ritualístico. Só continuará bebendo ayahuasca quem souber porque está fazendo isso", diz. O fato é que uma das conseqüências desse boom é, justamente, a idéia de que o uso religioso da ayahuasca possa ser considerado patrimônio cultural brasileiro. Para Beatriz Labate, o que se passa agora com as religiões que usam o chá pode ser comparado ao que já aconteceu, por exemplo, com a capoeira. "Durante boa parte do século 20 a capoeira era marginalizada. Aos poucos foi entrando nas academias, nas escolas e hoje é um ícone do Brasil." Ela diz que a percepção dessa religiosidade como um fator de identidade cultural é mais forte na Amazônia e particularmente no Acre, onde os comerciais de TV que estimulam a visitação ao estado exibem cenas de daimistas bailando. "Essas religiões foram perseguidas de várias formas por décadas. Se hoje o governador do Acre e o ministro da Cultura estão se manifestando favoravelmente a elas, é porque ocorreu a expansão desses grupos. Ninguém ia dar a menor bola se fosse apenas um fenômeno regional."
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Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor. Madre Teresa de Calcutá |